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Desatenção não é tudo igual: o que pode estar por trás da dificuldade de foco

Desatenção não é tudo igual: o que pode estar por trás da dificuldade de foco

Dificuldade de concentração é uma das queixas mais frequentes na prática clínica.
E, ao mesmo tempo, uma das mais mal interpretadas.

É comum que qualquer dificuldade de foco seja rapidamente associada ao transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).
No entanto, essa associação direta, embora compreensível, costuma ser imprecisa.

Porque, na realidade, a desatenção não é um fenômeno único.
Ela pode emergir de mecanismos distintos — e compreender essa diferença é o que define a qualidade do cuidado.

Quando o sintoma é o mesmo, mas o funcionamento é diferente

Na experiência clínica, pessoas com queixas semelhantes podem apresentar padrões de funcionamento completamente distintos.

Duas pessoas podem dizer:
“não consigo me concentrar”.

Mas, ao investigar com mais precisão, observa-se que:

  • uma não consegue iniciar a tarefa
  • outra inicia, mas não sustenta
  • outra mantém o foco, mas com alto custo mental
  • outra alterna constantemente entre estímulos

O sintoma é semelhante.
O funcionamento subjacente, não.

É nesse ponto que a escuta clínica precisa deixar de ser descritiva e passar a ser analítica.

TDAH: quando a atenção depende do contexto

No TDAH, a dificuldade de atenção não se manifesta como uma incapacidade global de se concentrar, mas como uma dependência do contexto.

A atenção tende a se organizar melhor em situações que envolvem:

  • interesse imediato
  • novidade
  • desafio
  • recompensa

E tende a se desorganizar quando essas características não estão presentes.

Esse padrão não indica falta de capacidade, mas uma dificuldade na autorregulação da atenção, conforme descrito em modelos contemporâneos do transtorno, como o de Russell A. Barkley.

Na prática, isso se traduz em um funcionamento inconsistente — e frequentemente incompreendido.

Ansiedade: quando a atenção está capturada por dentro

Em quadros ansiosos, a dificuldade de concentração assume outra configuração.

A atenção não está dispersa por falta de engajamento —
ela está ocupada.

Preocupações recorrentes, antecipações negativas e hipervigilância consomem recursos cognitivos, reduzindo a disponibilidade atencional para tarefas externas.

Nesses casos, o relato típico não é apenas “não consigo focar”, mas:

  • “minha cabeça não para”
  • “fico pensando em várias coisas ao mesmo tempo”
  • “não consigo me desligar”

Aqui, o problema não é iniciar ou sustentar a atenção, mas liberá-la de conteúdos internos.

Sobrecarga cognitiva: quando o cérebro está além do limite

Há ainda situações em que a dificuldade de foco não está associada a um transtorno específico, mas a um estado de sobrecarga.

Demandas excessivas, acúmulo de tarefas, privação de descanso e exigência constante de desempenho podem levar a uma redução global da eficiência cognitiva.

Nesse contexto, a atenção torna-se:

  • mais lenta
  • mais suscetível a distrações
  • menos consistente ao longo do tempo

Não por falha estrutural, mas por esgotamento funcional.

Privação de sono e uso de telas: fatores frequentemente subestimados

Dois fatores frequentemente negligenciados, mas com impacto significativo sobre a atenção, são:

Sono insuficiente ou de baixa qualidade

A privação de sono compromete diretamente processos como:

  • atenção sustentada
  • memória de trabalho
  • controle inibitório

Produzindo um padrão que pode mimetizar dificuldades atencionais clínicas.

Uso excessivo de estímulos digitais

Ambientes digitais altamente estimulantes — como redes sociais e conteúdos de rápida alternância — tendem a:

  • reduzir a tolerância a tarefas monótonas
  • aumentar a necessidade de estímulos constantes
  • fragmentar a atenção

Com o tempo, isso pode gerar a percepção de que “nada prende a atenção”, quando, na verdade, houve uma recalibração do sistema atencional.

Quando o problema não é atenção, mas organização

Em muitos casos, a dificuldade relatada como “falta de foco” está relacionada, na verdade, a funções executivas.

Dificuldades em:

  • organizar tarefas
  • priorizar atividades
  • planejar etapas
  • manter objetivos ativos

podem gerar a sensação de desatenção, mesmo quando a capacidade atencional está preservada.

Nesse cenário, o problema não está na atenção em si, mas no sistema que a direciona.

O risco de simplificar demais

Reduzir todas essas possibilidades a um único rótulo tem um custo.

Quando diferentes mecanismos são tratados como se fossem iguais:

  • intervenções tornam-se menos eficazes
  • o paciente pode não se reconhecer nas explicações
  • o cuidado perde precisão

Mais do que identificar sintomas, é necessário compreender como esses sintomas se organizam no funcionamento de cada pessoa.

Um ponto que muda a forma de olhar

Talvez a pergunta mais importante não seja:

“Você tem dificuldade de atenção?”

Mas:

Como a sua atenção funciona e em que condições ela se altera?

Essa mudança de pergunta desloca o foco do rótulo para o funcionamento.

E é justamente nesse nível que uma compreensão mais precisa se torna possível.

Em muitos casos, isso não pode ser inferido apenas pela descrição dos sintomas, exigindo uma análise mais estruturada do funcionamento cognitivo, emocional e comportamental.

Para além da queixa

Dificuldade de concentração é um ponto de partida — não um diagnóstico.

Compreender o que está por trás dela é o que permite:

  • intervenções mais eficazes
  • decisões mais seguras
  • e um cuidado verdadeiramente ajustado à singularidade de cada caso

Porque, no fim, não é sobre “ter ou não ter foco”.

É sobre entender o que, no seu funcionamento, está dificultando que ele se sustente.

Referências

Ashinoff, B. K., & Abu-Akel, A. (2021). Hyperfocus: The forgotten frontier of attention. Psychological Research, 85(1), 1–19.

Barkley, R. A. (2015). Attention-deficit hyperactivity disorder: A handbook for diagnosis and treatment (4th ed.). Guilford Press.

Diamond, A. (2013). Executive functions. Annual Review of Psychology, 64, 135–168.

Ishii, S., Takagi, S., Kobayashi, N., Jitoku, D., Sugihara, G., & Takahashi, H. (2023). Hyperfocus symptom and internet addiction in individuals with attention-deficit/hyperactivity disorder trait. Frontiers in Psychiatry, 14, 1127777.

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O trabalho do Dr. Rosimar Dias se desenvolve na interseção entre psicologia clínica, neurociência e compreensão integral da experiência humana.

Cada caso é conduzido com rigor científico e atenção à singularidade de quem o vive, considerando história, contexto e funcionamento de forma integrada.

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