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Memória ruim ou atenção sobrecarregada?

Memória ruim ou atenção sobrecarregada?

“Minha memória está ruim.”

Essa é uma das queixas mais frequentes — e, ao mesmo tempo, uma das mais imprecisas — na prática clínica.

Esquecimentos cotidianos, dificuldade para reter informações, sensação de “branco” ao tentar lembrar algo importante.

A interpretação imediata costuma ser direta:
há um problema de memória.

Na maior parte dos casos, porém, o que se observa é outra coisa.

A memória não está falhando no final do processo.
Ela está sendo comprometida no início.

Memória não começa na lembrança

Há uma ideia intuitiva de que memória diz respeito apenas à capacidade de lembrar.

Do ponto de vista neuropsicológico, essa é apenas a etapa final.

Para que algo possa ser lembrado, é necessário que antes tenha sido:

  • percebido
  • selecionado
  • registrado
  • organizado

Esse processo inicial é conhecido como codificação.

E ele depende diretamente da atenção.

Sem atenção suficiente no momento da entrada da informação,
não há registro consistente —
e, portanto, não há o que recuperar depois.

Quando o problema não é esquecer — é não ter registrado

Em muitos casos, o relato de “memória ruim” está associado a situações como:

  • não lembrar o que acabou de ouvir
  • esquecer onde colocou um objeto
  • perder partes de uma conversa
  • precisar reler várias vezes a mesma informação

Esses episódios costumam ser vividos como falhas de memória.
Mas, ao analisar com mais precisão, observa-se que a informação:

nunca foi devidamente registrada.

A atenção, naquele momento, estava:

  • fragmentada
  • dividida entre múltiplos estímulos
  • capturada por pensamentos internos
  • ou operando sob sobrecarga

O resultado não é um problema de armazenamento.
É um problema de entrada da informação.

Atenção: a porta de entrada da memória

A relação entre atenção e memória é estrutural.

A atenção funciona como um filtro que define:

  • o que será selecionado
  • o que será ignorado
  • e o que terá prioridade para ser processado

Quando esse filtro está sobrecarregado ou desorganizado, a codificação se torna:

  • superficial
  • incompleta
  • inconsistente

E isso impacta diretamente a memória subsequente.

Em termos simples:
não se trata de esquecer — trata-se de não ter registrado com qualidade suficiente para lembrar.

O papel da memória de trabalho

Entre os processos envolvidos, a memória de trabalho ocupa uma posição central.

Ela é responsável por manter informações ativas por um curto período, permitindo:

  • acompanhar uma conversa
  • seguir instruções
  • integrar partes de uma tarefa
  • organizar o raciocínio em tempo real

Quando há sobrecarga ou menor eficiência nesse sistema, o funcionamento tende a se manifestar como:

  • perda do fio da conversa
  • dificuldade de manter informações simultâneas
  • necessidade de repetição constante
  • sensação de “a informação não fixa”

Esse padrão é amplamente descrito na literatura neuropsicológica, incluindo modelos de funcionamento cognitivo associados ao TDAH, como os de Russell A. Barkley, nos quais a memória de trabalho e o controle atencional desempenham papel central.

Quando a atenção está ocupada por dentro

Nem sempre a atenção está dispersa por estímulos externos.

Em muitos casos, ela está capturada por conteúdos internos.

Preocupações, antecipações, pensamentos recorrentes ou mesmo múltiplas linhas de raciocínio simultâneas competem pelos mesmos recursos cognitivos.

Nessas situações, a pessoa pode estar olhando, ouvindo, lendo —
mas não está, de fato, processando com profundidade suficiente.

O resultado é um padrão típico:

  • “eu estava lá, mas não absorvi”
  • “li, mas não registrei”
  • “ouvi, mas não ficou”

A memória, novamente, não falhou.
Ela não teve condições adequadas para se formar.

Sobrecarga e fragmentação

Outro fator relevante é a quantidade de informação sendo processada simultaneamente.

Ambientes com múltiplos estímulos — especialmente digitais — tendem a fragmentar a atenção, reduzindo o tempo de permanência em cada conteúdo.

Isso leva a um tipo de processamento:

  • rápido
  • superficial
  • pouco consolidado

Com o tempo, esse padrão pode gerar a percepção de que “nada fixa”, quando, na realidade, houve uma redução na profundidade do processamento inicial.

Quando a memória, de fato, está comprometida

É importante distinguir esse padrão de situações em que há, de fato, comprometimento mnésico.

Alterações primárias de memória tendem a se manifestar como:

  • dificuldade de aprender novas informações mesmo com atenção adequada
  • repetição frequente de perguntas ou conteúdos
  • esquecimento progressivo de eventos recentes
  • perda de informações previamente consolidadas

Nesses casos, o problema não está apenas na entrada da informação, mas em processos de armazenamento e consolidação.

Essa distinção é essencial —
e não pode ser feita apenas com base na percepção subjetiva.

O risco de interpretar errado

Quando dificuldades de atenção são interpretadas como falhas de memória, algumas consequências são frequentes:

  • aumento da preocupação com declínio cognitivo
  • uso de estratégias inadequadas (repetição sem organização)
  • frustração com a própria capacidade
  • atraso na identificação do funcionamento real

A intervenção passa a atuar no ponto errado do processo.

E, por isso, tende a ser menos eficaz.

Um ponto de integração

Na prática clínica, memória e atenção raramente devem ser analisadas isoladamente.

O que importa não é apenas se a pessoa lembra —
mas como a informação entra, é processada e se mantém ao longo do tempo.

Essa análise integrada permite compreender:

  • onde ocorre a perda de eficiência
  • em que momento o processo se fragiliza
  • e quais estratégias fazem sentido para aquele padrão específico

Um ponto final necessário

Nem toda dificuldade de lembrar é, de fato, um problema de memória.

Em muitos casos, o que está comprometido é o caminho que leva até ela.

A forma como a informação é captada, selecionada e organizada define, em grande medida, o que será possível lembrar depois.

Compreender isso muda a pergunta.

Deixa de ser:

“por que estou esquecendo?”

E passa a ser:

“em que momento a informação deixou de se formar como deveria?”

É nessa mudança de foco que começa uma compreensão mais precisa —
e, consequentemente, um cuidado mais eficaz.

Referências

Baddeley, A. (2012). Working memory: Theories, models, and controversies. Annual Review of Psychology, 63, 1–29.

Barkley, R. A. (2015). Attention-deficit hyperactivity disorder: A handbook for diagnosis and treatment (4th ed.). Guilford Press.

Diamond, A. (2013). Executive functions. Annual Review of Psychology, 64, 135–168.

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O trabalho do Dr. Rosimar Dias se desenvolve na interseção entre psicologia clínica, neurociência e compreensão integral da experiência humana.

Cada caso é conduzido com rigor científico e atenção à singularidade de quem o vive, considerando história, contexto e funcionamento de forma integrada.

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